Em artigo assinado, dom Adimir Antonio Mazali, bispo diocesano de Erexim/RS, recorda que o Papa São João Paulo II instituiu o Segundo Domingo da Páscoa como o Domingo da Divina Misericórdia para nos mostrar "o valor e a importância de vivermos a misericórdia como projeto de vida, no seguimento de Jesus Cristo".
Dom Adimir
Antonio Mazali*
Estamos
celebrando o Período Pascal que se estende por cinquenta dias até a Festa de
Pentecostes. A Ressurreição de Cristo é um acontecimento central para a nossa
fé, pois nos revela a realidade esperançosa sobre a vitória da vida sobre a
morte, revelando-nos que a vida é mais forte do que a morte.
Prezados
irmãos e irmãs. O Papa São João Paulo II instituiu o Segundo Domingo da Páscoa,
o Domingo da Divina Misericórdia. Por ocasião do Ano da Misericórdia, celebrado
em 2016, o Papa Francisco nos lembrou que a Misericórdia é um dos principais
atributos de Deus. Deus é Misericordioso. O Salmo responsorial, desse domingo,
convida-nos a confiar em Deus, pois “eterna é a sua misericórdia” (Sl 118,2). O
Papa Francisco nos convidava, além disso, a incorporar a misericórdia como
princípio de vida que orienta nossas relações. Dessa forma, o Domingo da
Misericórdia nos mostra o valor e a importância de vivermos a misericórdia,
como projeto de vida, no seguimento de Jesus Cristo.
O texto do
Evangelho, desse domingo, apresenta os dois primeiros encontros do Cristo
Ressuscitado com os discípulos. O relato situa o momento da aparição do
Ressuscitado: “à tarde daquele dia, o primeiro da semana” (Jo 20,19). É o dia
em que começa a “nova criação”, o novo êxodo, o dia da nova Páscoa, o dia da
Ressurreição. Os discípulos estavam com as “portas fechadas”, pois o ambiente
era de hostilidade, insegurança e medo. O anúncio de Maria Madalena que havia dito:
“Eu vi o Senhor” (Jo 20,18), não os havia libertado do medo. Isso mostra que
não basta “saber” que Jesus ressuscitou, é preciso “fazer a experiência” do
encontro com O Ressuscitado. É o encontro com Ele que dá força e encoraja os
discípulos para a missão.
Ao
colocar-se no “meio deles” (Jo 20,19), Jesus cumpriu sua palavra, dita na
Última Ceia: “Não vos deixarei órfãos, voltarei e estarei convosco” (Jo 14,18).
O seu anúncio é de “paz”: “A paz esteja convosco” (Jo 20,19). É a saudação
daquele que venceu o mundo. A paz é o anúncio e o desejo do Cristo ressuscitado
a todos. “Depois mostrou-lhes as mãos e o lado” (Jo 20, 20), indicando ser ele
o mesmo que estava antes com eles, o que fora crucificado. São os sinais do seu
amor e da sua vitória. Mostra-lhes, com isso, que por eles havia entregado a
vida e Deus o ressuscitou. Por isso, suas palavras de paz são verdadeiras, não
são fantasiosas, mas, sim, testemunho de alguém que deu sua própria vida por
amor aos seus. Assim sendo, a presença do ressuscitado se torna motivo de
grande alegria. Com tal encontro, os discípulos foram desafiados a sair do
medo, do fechamento e abrir-se à fé e ao projeto do Ressuscitado, superando
todos os receios paralisantes.
Caríssimos
irmãos e irmãs. Jesus apresentou-se como o enviado do Pai, enviando os
discípulos a continuar Sua missão: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”
(Jo 20,21). A missão dos discípulos deverá ser cumprida como Jeus mesmo a
cumpriu. Ao enviá-los, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo” (Jo
20,22), capacitando-os e encorajando-os à missão. Jesus infundiu-lhes o seu
“alento de vida”, o seu Espírito, sopro vital, para que a missão dos discípulos
fosse cumprida plenamente. Nesse ato, Jesus institui o Sacramento da
Reconciliação: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem
não perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20,23). Essa missão é uma
manifestação da misericórdia de Deus para com todos os seus filhos, e ao mundo
inteiro.
O Evangelho
recorda-nos, ainda, o episódio do encontro de Jesus Ressuscitado com Tomé,
discípulo que não estava com os demais (cf. Jo 20,24). Separado da Comunidade,
não participou da experiência de encontro vital com o Ressuscitado, como os
outros: não recebeu o sopro do Espírito e nem a missão que Jesus lhes havia
dado (Jo 20,21-23). Os discípulos narraram-lhe a experiência: “Vimos o Senhor”
(Jo 20,25). Dessa forma, os Onze formavam uma comunidade com uma nova
experiência: a de que Jesus não era mais uma figura do passado, pois estava
vivo no meio deles. Tomé não acreditou e não confiou no testemunho dos seus
irmãos. Cristo ressuscitado é percebido quando os discípulos estão reunidos em
comunidade. Separado da comunidade, Tomé não vivera a experiência do encontro
com o ressuscitado. Ele só fez a experiência do encontro com o Ressuscitado
quando reintegrou-se na Comunidade. Isso vale para nós também. Aquele que vive
separado da Comunidade, da Igreja, não percebe o amor e a presença de Deus em
sua vida. É na Comunidade de fé que Jesus é percebido. Daí a importância da
participação na Comunidade Eclesial, como faziam os primeiros cristãos, segundo
relata a Leitura dos Atos dos Apóstolos. Na Comunidade, os cristãos “eram
perseverantes em ouvir o ensinamento dos Apóstolos, na comunhão fraterna, na
fração do pão e nas orações” (At 2,42). Isso os impulsionava a realizar muitos
“sinais” e “prodígios” em favor das pessoas.
Irmãos e
irmãs, pela Ressurreição de Jesus Cristo, Deus nos faz nascer de novo para uma
esperança viva, conforme nos relata a Segunda Leitura. Ela nos convida a
mergulhar no amor misericordioso de Deus que nos ama e nos renova sempre. Que
este tempo pascal nos ajude a aprofundar nossa fé e nosso compromisso de amor e
solidariedade para com nossos irmãos e irmãs, deixando-nos guiar sempre pelo sentimento
de misericórdia para com todos, da mesma forma que Deus é misericordioso para
conosco.
*Bispo Diocesano de Erexim/RS.
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