Na Sala das Bênçãos, no Vaticano, Leão XIV discursou para cerca de 420 diplomatas, guiados por George Poulides, embaixador de Chipre e Decano do Corpo Diplomático. O Papa denunciou a diplomacia da força, que está substituindo a diplomacia do diálogo: "A guerra voltou a estar na moda e um fervor bélico está se alastrando. Foi quebrado o princípio, estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, que proibia os países de recorrerem à força para violar fronteiras alheias”.
Bianca Fraccalvieri – Vatican News
Realizou-se na manhã desta
sexta-feira, 9 de janeiro, uma das audiências mais importantes do ano.
Tradicionalmente, ao receber o Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé, o Papa faz uma
análise da conjuntura internacional, passando em resenha os principais fatos
que marcaram os últimos meses. E assim foi para Leão XIV, que pessoalmente
viveu o encontro como uma “novidade”, por ser sua primeira vez com os
diplomatas de 184 países e organizações internacionais.
O Santo Padre começou recordando o
Jubileu recém-concluído e a morte do seu predecessor, o Papa Francisco: “No dia
do funeral, o mundo inteiro se reuniu em torno do seu caixão, sentindo a perda
de um pai que guiou o Povo de Deus com profunda caridade pastoral”. Outro
evento eclesial de destaque foi a viagem à Turquia e ao Líbano, pela qual o
Papa agradeceu às autoridades de ambos os países pelo acolhimento.
A saudação do Papa ao Decano do Corpo Diplomático,
George Poulides (@Vatican Media)
Ao partilhar a sua visão sobre este
tempo “tão conturbado por um número crescente de tensões e conflitos”, o
Pontífice se deixou guiar pela grande obra de Santo Agostinho De
Civitate Dei, "A Cidade de Deus". O livro não propõe um
programa político, mas alerta para os graves perigos decorrentes de falsas
representações da história, de um nacionalismo excessivo e da distorção do
ideal do estadista. Para Leão XIV, certas semelhanças permanecem bastante
atuais, como os movimentos migratórios e a reestruturação dos equilíbrios
geopolíticos e dos paradigmas culturais.
“Neste
nosso tempo, preocupa particularmente a fragilidade do multilateralismo no
plano internacional. Uma diplomacia que promove o diálogo e procura o consenso
de todos está a ser substituída por uma diplomacia da força, de indivíduos ou
de grupos de aliados. A guerra voltou a estar na moda e um fervor bélico está
se alastrando. Foi quebrado o princípio, estabelecido após a Segunda Guerra
Mundial, que proibia os países de recorrerem à força para violar fronteiras
alheias.”
A importância da ONU e da defesa dos
direitos humanos fundamentais
Hoje, analisou o Papa, não se procura
a paz como um dom de Deus, mas através das armas, como condição para afirmar o
próprio domínio, comprometendo gravemente o Estado de direito. O Pontífice
recordou que a Organização das Nações Unidas foi criada 80 anos atrás tendo
como eixo justamente a cooperação multilateral para salvaguardar a paz e
defender os direitos humanos fundamentais.
A propósito do direito internacional
humanitário, Leão XI recordou que deve sempre prevalecer sobre as veleidades
dos beligerantes: “A Santa Sé reitera com firmeza a sua condenação de qualquer
forma de envolvimento de civis em operações militares”.
Sobre o direito de expressão,
reforçou a necessidade do diálogo, mas advertiu para o uso e o significado das
palavras, cada vez mais utilizadas como uma arma com a qual se engana, se
atinge e ofende os adversários, seja na política, seja nas redes sociais.
Ainda sobre a linguagem, o Santo
Padre manifestou sua preocupação com o desenvolvimento de uma nova linguagem,
que, na tentativa de ser cada vez mais inclusiva, “acaba por excluir aqueles
que não se adaptam às ideologias que a animam”.
Papa se reúne pela primeira vez com o Corpo
Diplomático (@Vatican Media)
A crescente perseguição aos cristãos
O Papa Leão falou ainda da liberdade
de consciência, sobretudo na rejeição de práticas como o aborto ou a eutanásia,
e da liberdade religiosa, pedindo “total respeito” de culto para os cristãos e
para todas as outras comunidades religiosas. A propósito, condenou mais uma vez
com veemência o antissemitismo.
O Pontífice lamentou a crescente
perseguição aos cristãos, que afeta mais de 380 milhões de fiéis em todo o
mundo, ou seja, um em cada sete. E citou países como Bangladesh, Nigéria, Síria
e Moçambique. Já na Europa ou nas Américas, verifica-se uma forma sutil de
discriminação por razões políticas ou ideológicas, especialmente quando se
defende a dignidade dos mais frágeis.
Nesta categoria, o Papa incluiu os
migrantes, pedindo ações contra a ilegalidade e o tráfico de seres humanos, e
os detentos, renovando o chamado pela abolição da pena de morte.
Leão XIV discursou ainda a favor da
família e do matrimônio, como união exclusiva e indissolúvel entre a mulher e o
homem. E condenou o chamado “direito ao aborto seguro” e a gravidez de
substituição, transformando-a num serviço comercializado. Semelhantes
considerações podem ser estendidas aos doentes e às pessoas idosas e sozinhas,
e aos jovens, mais expostos à toxicodependência.
Respeitar a vontade do povo
venezuelano
Diante de um verdadeiro
“curto-circuito” dos direitos humanos, Leão XIV mencionou novamente Santo
Agostinho para reivindicar o “direito de cidadania” à cidade de Deus. “Na
ausência de um fundamento transcendente e objetivo, prevalece apenas o amor a
si mesmo”, afirmou o Santo Padre, que ofusca a empatia para com o próximo.
É o que se constata no prolongamento
da guerra na Ucrânia e na Terra Santa, com enorme sofrimento infligido à
população civil. No primeiro caso, o Papa reafirmou a urgência de um
cessar-fogo imediato. No segundo, a solução de dois Estados para responder às
legítimas aspirações de ambos os povos.
No continente americano, Leão XIV
manifestou preocupação com as tensões no Mar do Caribe, ao longo da costa
americana do Pacífico e no Haiti. E sobre a Venezuela, afirmou:
“Renovo
o apelo ao respeito pela vontade do povo venezuelano e ao empenho na defesa dos
direitos humanos e civis de todos e na construção de um futuro de estabilidade
e concórdia, haurindo inspiração no exemplo dos seus dois filhos que tive a
alegria de canonizar em outubro passado, José Gregorio Hernández e Irmã Carmen
Rendiles, a fim de construir uma sociedade baseada na justiça, na verdade, na
liberdade e na fraternidade, e assim superar a grave crise que há muitos anos
aflige o país.”
No panorama mundial, o Pontífice
falou das crises em Mianmar e na região africana dos Grandes Lagos, no Sudão e
Sudão do Sul.
Audiência ao Corpo Diplomático é uma tradição no
início do novo ano (@Vatican Media)
O perigo do aumento dos arsenais
nucleares e a IA
Além de fronteiras geográficas, a paz
também está ameaçada pela existência de arsenais nucleares. A propósito, o Papa
Leão apontou para a importância de dar seguimento ao Tratado New START,
que termina em fevereiro próximo. “O perigo é que o sonho seja o da corrida a
produzir novas armas cada vez mais sofisticadas”, disse o Papa, incluindo neste
tópico o desafio da inteligência artificial, ferramenta que também requer uma
gestão adequada e ética.
Leão XIV concluiu seu discurso em tom
esperançoso, pois mesmo diante deste quadro dramático, a paz continua possível.
Exige humildade e coragem: "A humildade da verdade e a coragem do
perdão".
Para finalizar, citou São Francisco
de Assis, cuja morte completará 800 anos no próximo mês de outubro: “A sua vida
é luminosa porque foi animada pela coragem da verdade e pela consciência de que
um mundo pacífico se constrói a partir de um coração humilde, voltado para a
cidade celestial. Um coração humilde e construtor de paz é o que desejo a cada
um de nós e a todos os habitantes dos nossos países no início deste novo ano.
Obrigado!”.
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Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2026-01/papa-leao-xiv-audiencia-corpo-diplomatico-ano-novo.html
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