Dom Anuar Battisti*
No domingo passado, celebramos a festa da “Manifestação do Senhor” ao mundo, através dos Reis Magos. Quero partilhar com vocês algumas reflexões a partir deste fato às vezes celebrado de maneira folclórica, através das cantigas de reis ou então pensando somente no fato bonito e atraente da viagem, dos presentes, da estrela e do menino na manjedoura.
Na prática, os magos eram pessoas bem informadas e conhecedoras dos fenômenos cósmicos. Herodes em Jerusalém, lugar das decisões políticas, portanto, centro do poder, sente ameaçado pela noticia do novo Rei e chama os magos para buscar o menino e informá-lo de tudo, porque ele também quer “adorar”. Assim, vemos a cena principal deste drama que é “Jesus contra o Herodes, Belém contra Jerusalém”.
“O verdadeiro rei dos judeus não é o violento (assassino), prepotente e politiqueiro Herodes, centro do poder opressor. O verdadeiro Rei dos judeus é um recém nascido em Belém, cidade do pastor Davi, da periferia de Jerusalém, vai sair o líder alternativo, o chefe-pastor, aquele que vai defender o povo da ganância dos exploradores”.(Vida Pastoral N.258,p.38). Na medida em que os magos se afastam de Jerusalém, do poder opressor, começam a ver a estrela a indicar o caminho. Seguindo a estrela vão ao lugar certo para o encontro com o verdadeiro Rei. Interessante observar um detalhe do evangelho: “Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma grande alegria”(Mt,2,10).
No caminho, os magos perdem a estrela, e voltam a ver de novo. Quantas vezes perdemos de vista a estrela que nos guia, perdemos a estrela da fé que nos ilumina para ver a Luz, que nos faz ver longe e seguir o caminho para o encontro com o verdadeiro Rei. Conseguem ver a luz da estrela enquanto caminham se distanciando do poder político que mata e oprime. Quando formos capazes de nos afastar do mal, da corrupção, da violência, da opressão, a certeza do caminho, a direção acertada da Luz se torna uma realidade e conseguimos ver, oferecer presentes e adorar.
Depois que os magos ofereceram presentes e adoraram, já não voltam pelo mesmo caminho. Depois de encontrarmos o Senhor e oferecer-nos como presente e adorá-lo, já não podemos voltar pelo mesmo caminho. A vida toma outro rumo, tudo se transforma, o pecado e a morte, o ódio e a violência, a guerra e a destruição já não têm lugar no coração humano. Se ainda não conseguimos viver assim é sinal que o Senhor da história e da humanidade ainda continua um solene desconhecido. Ainda estamos procurando encontrar o menino da luz e da paz, o menino da periferia que se fez pão, o menino que não tinha aonde reclinar a cabeça e que se faz caminho, o menino que discutia com os doutores da lei e que é verdade, o menino que ameaçado e morto numa cruz e que se faz vida para todos. Um encontro de adoração, apenas, é suficiente para mudar de rumo.
Sei em quem eu coloquei a minha esperança, diz o apóstolo Paulo. Eu sei em quem colocar a minha vida e a minha esperança neste novo ano que iniciamos. Eu sei aonde depositar toda a minha confiança neste mundo de desconfiados, eu sei em quem encontrar a luz e a paz neste mundo de trevas e morte, eu sei em quem colocar o meu presente e o meu futuro neste mundo marcado pelo imediatismo estressante. Eu sei escapar da corrupção do poder opressor, é só deixar-se encontrar por Ele.
* Dom Anuar Battisti é arcebispo de Maringá (PR)
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
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