Foi em sufrágio pelas vítimas do cruel atentado
terrorista perpetrado em Paris que o Papa Francisco celebrou, na manhã de 8 de
Janeiro, a missa na capela de Santa Marta, disse ele mesmo no início do rito,
manifestando toda a sua dor por este gesto feroz e vil, exprimindo uma
proximidade especial aos familiares das vítimas e rezando para que transforme o
coração dos perpetradores.
«O atentado de ontem em Paris – afirmou – faz-nos
pensar em toda a crueldade humana, em todo o terrorismo, quer isolado, quer de
Estado, na crueldade de que o homem é capaz! Oremos nesta missa pelas vítimas
de tal crueldade, rezando também pelos cruéis, para que o Senhor mude o seu
coração».
Nestes
dias, disse o Papa, «a palavra-chave na liturgia e na Igreja é “manifestação”:
o Filho de Deus manifestou-se na festa da Epifania aos gentios; no Batismo,
quando desce sobre Ele o Espírito Santo; nas bodas de Caná, quando transforma
milagrosamente a água em vinho»: «são estes os três sinais que a liturgia
apresenta nestes dias para nos falar da manifestação de Deus que se faz
conhecer». Mas «a pergunta é esta: como podemos conhecer Deus?». Assim,
pomo-nos imediatamente diante — afirmou o Papa, referindo-se à primeira Leitura
(1 Jo 4, 7-10) — «do argumento do apóstolo João na primeira Carta: o
conhecimento de Deus». Portanto, «como se pode conhecer Deus?».
A
esta pergunta, disse, «uma primeira resposta seria: podemos conhecer Deus com a
razão». Mas «posso conhecer Deus com a razão? Em parte sim». Com efeito, «com o
meu intelecto, raciocinando, observando as coisas do mundo, podemos primeiro
compreender que existe um Deus e a sua existência pode ser entendida nalguns
vestígios da personalidade de Deus». Porém, esclareceu o Papa, «isto é
insuficiente para conhecer Deus», dado que «Deus se conhece totalmente no
encontro com Ele, e para o encontro só a razão não é suficiente, é necessário
algo mais: a razão ajuda-nos a ir só até a um certo ponto».
Na
sua carta «João diz claramente o que é Deus: é amor». Por isso, «só pelo
caminho do amor podemos conhecer Deus». Sim, «amor razoável, acompanhado da
razão, mas amor». Talvez possamos perguntar: «como posso amar quem eu não
conheço?». A reposta é clara: «Ama o teu próximo», «esta é a doutrina dos dois
mandamentos: o mais importante é amar a Deus, porque Ele é amor», e o segundo
«é amar o próximo, mas para chegar ao primeiro devemos subir pela escada do
segundo». Em síntese, «através do amor ao próximo chegamos a conhecer Deus, que
é amor».
Depois,
o Papa quis repetir as palavras de são João: «Amemo-nos uns aos outros, porque
o amor vem de Deus. Quem ama foi gerado por Deus». Mas «não podes amar se Deus
não puser o amor dentro de ti, se gerar em ti este amor», pois «quem ama
conhece Deus». São João escreve: «quem não ama não conheceu Deus, porque Deus é
amor». Não nos referimos a um «amor de telenovela» mas, antes, a um «amor
sólido, forte, eterno, que se manifesta no seu Filho que veio para nos salvar».
Então, é um «amor concreto, feito de obras e não de palavras». Assim, «para
conhecer Deus é necessária uma vida inteira: um caminho de amor, de
conhecimento, de amor ao próximo, de amor a quantos nos odeiam, de amor a
todos».
Foi
o próprio Jesus que «nos deu o exemplo do amor»: «não fomos nós que amamos a
Deus, mas foi Ele que nos amou e nos enviou o seu Filho como vítima de expiação
pelos nossos pecados». Por isso, «na pessoa de Jesus podemos contemplar o amor
de Deus». E «fazendo o que Jesus nos ensinou sobre o amor ao próximo chegamos
ao conhecimento de Deus, que é amor».
Depois,
o Papa referiu-se a outro trecho da Escritura (Jr 1, 11-12), citando-o
literalmente: Deus diz: «Que vês, Jeremias? Vejo um ramo de amendoeira. Viste
bem, porque velo sobre a minha palavra para que se cumpra». E «o ramo de
amendoeira é o primeiro que floresce na primavera». Isto significa que «o
Senhor vigia», é sempre «o primeiro, como a amendoeira, ama-nos primeiro».
Também nós «teremos sempre esta surpresa: quando nos aproximamos de Deus pelas
obras de caridade, da oração, da Comunhão e da Palavra de Deus, vemos que já
está ali à nossa espera». E «como a flor de amendoeira, é o primeiro».
Nesta
perspectiva está também o trecho do Evangelho de Marcos (6, 34-44 ) proposto pela
liturgia. «Diz-se que Jesus se compadeceu da multidão, é o seu amor: viu tantas
pessoas, como ovelhas sem pastor, desorientadas». Mas também hoje há «muita
gente desnorteada nas nossas cidades e países». Quando «Jesus viu a multidão
desorientada, compadeceu-se: começou a ensinar-lhes a doutrina e as pessoas
ouviam-no porque falava bem, falava ao seu coração».
Mas
depois Jesus deu-se conta de que cinco mil pessoas não tinham o que comer e
chamou os discípulos. É Cristo que «vai primeiro ao encontro do povo». Por sua
vez, talvez «os discípulos se tenham enervado e a sua resposta foi forte:
devemos ir comprar duzentos denários de pão para lhes dar de comer?». «Os
discípulos não tinham entendido nada!». Mas «o amor de Deus é assim: espera-nos
sempre, surpreende-nos sempre». É «o nosso Pai que nos ama muito e está sempre
disposto e perdoar-nos». Não uma vez, mas «setenta vezes sete: sempre, como um
Pai cheio de amor». Assim, «para conhecer este Deus que é amor devemos subir a
escada do amor ao próximo, pelas obras de caridade e de misericórdia que o
Senhor nos ensinou».
O
Papa concluiu com uma oração: «Nestes dias que a Igreja nos faz pensar na
manifestação de Deus, o Senhor nos conceda a graça de o conhecer pelo caminho
do amor».
Fonte: L’Osservatore Romano
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