sábado, 6 de abril de 2019

CATEQUESE QUARESMAL V



 A VIA DA SALVAÇÃO 

Aos poucos vamos chegando na “reta final” deste tempo de Quaresma. A própria liturgia da Igreja vai fazendo essa indicação começando a trazer à tona uma mudança de tonalidade nas leituras e orações da Santa Missa. As leituras, por exemplo, vão indicando com mais tenacidade o confronto de Jesus com os Mestres da lei, com os fariseus e outras autoridades religiosas do seu tempo. Foi o que escutamos na I leitura do sábado da IV Semana da Quaresma do profeta Jeremias (Jr 11,18-20): “Senhor, avisaste-me e eu entendi; fizeste-me saber as intrigas deles. Eu era como manso cordeiro levado ao sacrifício, e não sabia que tramavam contra mim: ‘Vamos cortar a árvore em toda a sua força, eliminá-lo do mundo dos vivos, para seu nome não ser mais lembrado’. E tu, Senhor dos exércitos, que julgas com justiça e perscrutas os afetos do coração, concede que eu veja a vingança que tomarás contra eles, pois eu te confiei a minha causa”. Assim, a Palavra de Deus vai nos fazendo entrar naquele caminho último que Jesus Cristo viveu para nossa salvação. Ao lermos essas palavras de Jeremias damo-nos conta não somente de uma entrega incondicional, da “ovelha que vai sendo levada para o sacrifício”, mas esse profeta diz algo intrigante, que chama atenção, ele pede a Deus para ver a vingança contra seus inimigos: “concede que eu veja a vingança que tomarás contra eles, pois eu te confiei a minha causa”. Parece paradoxal pensarmos numa entrega voluntária para o sacrifício e ao mesmo tempo num pedido de vingança da parte de Deus. Afinal, é entrega livre ou espera-se uma “revanche”? O Papa Bento XVI, em uma homilia sua a Munique, na Alemanha, explicando outra passagem da Palavra de Deus, dessa vez de Isaías, dizia: “o profeta dirige-se a um povo oprimido dizendo: ‘A vingança de Deus virá’. Podemos intuir facilmente como o povo imagina essa vingança. Mas o mesmo profeta revela depois em que ela consiste: na bondade restabelecedora de Deus. A explicação definitiva da palavra do profeta, encontramo-la n’Aquele que morreu na Cruz: em Jesus, o Filho de Deus encarnado que aqui nos olha com tanta insistência. A sua ‘vingança’ é a Cruz: o ‘Não’ à violência, ‘o amor até ao fim’” (10/09/2006). Esse é o caminho da salvação, vivido por Nosso Senhor Jesus Cristo, o caminho da Cruz, o caminho santo, que na Quaresma recordamos piamente quando revivemos em oração percorrendo a Via Sacra. Aquele caminho feito pelas ruas estreitas de Jerusalém, da saída do Pátio de Pilatos até o Calvário traça o itinerário final de uma vida totalmente doada a fazer apenas a Vontade do Pai do Céu – e esse foi o verdadeiro sacerdócio de Jesus: “Nos dias de sua vida mortal, dirigiu preces e súplicas, entre clamores e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, e foi atendido pela sua piedade. Embora fosse Filho de Deus, aprendeu a obediência por meio dos sofrimentos que teve. E uma vez chegado ao seu termo, tornou-se autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb 5,7-9a). A Via Sacra sempre traz aos nossos corações uma mensagem, uma reflexão, a partir daquilo que meditamos das Estações. Um grande pensador católico, Pe. Romano Guardini, dizia: “Duas coisas sobretudo esta devoção te a dizer-nos. Em primeiro lugar a Via Sacra nos ensina a perceber vivamente aquilo que o Senhor padeceu. (...) Depois uma segunda coisa: a Via Crucis é uma escola de superação. Vemos o Senhor padecer amargamente no corpo e na alma, mas também a vencer o sofrimento com amor a Deus e por nós” (A Via Crucis de nosso Senhor e Salvador1 , p. 8). 1 Tradução livre nossa, do italiano, que tem como título: La Via Crucis del nostro Signore e Salvatore, Queriniana, 2018). Assim, podemos entender que a devoção de rezarmos a Via Sacra nos faz entrar, de algum modo, no mistério da Paixão do Senhor, a levarmos com Ele a nossa cruz, a fazermos com Ele um caminho de conversão e de salvação quando somos capazes de nos arrependermos e convertermos nosso coração para Ele. Ainda, como dizia Pe. Guardini, percorrer a Via Dolorosa do Filho de Deus deve ser para todos nós uma “escola de vitória sobre o sofrimento” (p.9). Em um mundo de tantos sofrimentos e dores, em uma sociedade ferida pela falta de amor a Deus e ao próximo, meditar a Via Sacra deve nos ajudar a pôr em cada Estação a nossa própria vida, as nossas angústias e sofrimentos, aqueles pessoais e aqueles sociais, para que possamos “ver as (...) dificuldades diárias em união com aquele [sofrimento] do Senhor e dali adquirir discernimento e força não só para levar o próprio sofrimento, mas também para superá-lo” (p.9). Deste modo, ao entrarmos na quinta semana da Quaresma proponho que durante esses dias, antes do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, meditemos a Via Sacra. Nas livrarias católicas ou em diversos sites da internet podemos encontrar o texto das Estações. Coloquemo-nos no mesmo caminho, assumamos o lugar de tantos que ali aparecem: a Virgem Maria, os soldados, Pilatos, os saduceus, as mulheres de Jerusalém, Verônica, Simão Cirineu, aqueles que estavam ao pé da Cruz, ou alguém anônimo na multidão. Com quem nos identificamos? Onde pomos o nosso coração ao meditarmos a Via da Salvação? Façamos nestes dias, que nos aproximam da Grande Semana e do Tríduo Pascal, esse esforço de oração e meditação; parafraseando aquilo que escrevia o Venerável Papa Pio XII, em outro contexto “proponhamo-nos, pois, falar [e meditar] das riquezas entesouradas no seio da Igreja que Cristo adquiriu com seu sangue (At 20, 28) e cujos membros se gloriam de uma Cabeça coroada de espinhos. Isto mesmo já é prova evidente de que a verdadeira glória e grandeza não nascem senão da dor; por isso nós quando compartilhamos dos sofrimentos de Cristo, devemos alegrar-nos, para que também na renovação da sua glória jubilemos e exultemos” (cf. 1 Pd 4, 13) (Encíclica Mystici Corporis, 01). Boa oração, abençoada meditação!

Roma, 06 de abril de 2019
Pe. Rafhael Silva Maciel Missionário da Misericórdia

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